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Gal. Liéve sob o arroxeado do céu
Camilla Lopes
O céu da guerra tem uma surpreendende paz, já que os tiros de fuzil não avisam quando voam. No entanto, eles vão e voltam. O meu exército foi especialmente treinado em um deserto. Somos soldados que andam em areia, sob o sol causticante. Com tanta água quanto um inexistente cacto venenoso, praticamente temos mais veneno nas veias do que água ou plasma ou sangue. Não há em nós compaixão pelo sofrimento alheio, mas somos éticos e vá lá, ninguém vai humilhar o inimigo. As noites do deserto onde a Lua chama são para se entregar, relaxar no acampamento e beber alguma coisa. A parcimônia é crime de guerra, a deserção não. É possivel segurar um soldado pela chantagem e usar do sarcasmo para as despedidas. É no raro ponto alto da planície, que se enxerga o inimigo. Pouco acima, nunca nivelados.
Enquanto a mim, Gal. Liéve ando com as botas na areia sob o roxo céu penso nas idéias que criei para um excército que confunde as minhas normas bélicas com uma certa filosofia barata – que apenas eu sei que são baratas. Os soldados pensam que sou grande coisa . Eu carrego o peso de todas as mochilas e mais a culpa de ter inventado toda esta guerra no deserto. Ponto que vale positivamente para nós; um embate seguro, somos mais éticos aqui neste lugar de absurda densidade demográfica. Não há criancinhas mortas, só aquelas que morreram dentro de mim e dos meus soldados. Aqui jazem as escolhas do absurdo, camufladas . E agora só mesmo uma novela para me trazer de volta à sanidade.
Eu Gal.Liéve, cinco guerras e nenhuma sanidade, o que sobrou foi um profundo e relevante amor - pelo céu que restou, pela planície que eu acredto ter uma certa altura e por um excército que crê na minha filosofia desértica. Eu que os arrastei para longe, e os convenci que a dignidade se faz mais forte no afastamento total e nocivo. Sim, a solidão provocou o motim e agora estou aqui com soldados autoconfiantes. Um ideal profano de covardia, e eu que acreditei que o deserto era seguro para um dignidade torpe, onde muito bem cabem as escolhas do ego. Um ridículo excército de ególotras. Eu olho para os meus narcísicos soldados, que bebem vinho sob o céu de tiros de fuzis que não nos atingirão, já que no meu mapa esta planície do deserto tem uma depressão.
Há um soldado de nome Liber que se aproxima com vinho ... acredita em mim, como em sua prórpria mãe. Liber percebe que eu choro e sente pena. Apóia a mão em meu ombro cansado...
Eu o mato com minha baioneta. Liber não seria mesmo um bom soldado.
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