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De se lamber os textos...

 
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Fabiano Calixto
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Fabiano Calixto nasceu em Garanhuns, PE, em 8 de junho de 1973. Vive em São Paulo. É mestrando em Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de São Paulo, USP. Publicou os seguintes livros de poema: Algum (edição do autor, 1998), Fábrica (Alpharrabio, 2000), Um mundo só para cada par (Alpharrabio, 2001), Música possível (CosacNaify/ 7Letras, 2006) e Sangüínea (Editora 34, 2007). Publicou também o livro de poemas infantis Pão com bife (Edições SM, 2007). Traduziu poemas de, entre outros, Allen Ginsberg, Benjamin Prado, Gonzalo Rojas, Jim Morrison, Laurie Anderson. Organizou, com André Dick, o livro A linha que nunca termina – Pensando Paulo Leminski (Lamparina, 2005). É editor, ao lado de Angélica Freitas, Marília Garcia e Ricardo Domeneck, da revista Modo de Usar & Co. Atualmente compõe seu novo livro de poemas, Nominata morfina.
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Juntando gravetos
Fabiano Calixto

Para Antonio Calixto, com carinho e muita saudade

Faz um tempo eu quis

Fazer uma canção

Pra você viver mais

John Ulhoa

o silêncio de hoje

toca a quaresmeira lá fora

e, hóspede da perfeição,

torna-se igualmente lilás

é com esse silêncio

que leio suas palavras potáveis

recém chegadas de longe

– de onde? –

de algum lugar onde parecia pedra

e era queda

(a dor nos traz anseios

tolos – como fazer a Terra

voltar meses, anos atrás, como fez

aquele herói extraterrestre

do filme e do álbum de figurinhas

que juntos colávamos

em muitas manhãs de domingo –

ou olhar uma estrela

e imaginar que você

dorme em algum lugar

ali por perto –

e nos dá a medida do tempo

e continuamos sem entender

medida alguma, aguardando

o barco retornar de Delfos

para que possamos, também,

nos despedir definitivamente

desse nosso

bosque lilliputiano)

dizem que é a última canção

mas eles não nos conhecem

por dentro da tarde

as flautas tomam fôlego

para que canções flutuem

ao redor das árvores

que fazem sombra

para os que se despedem

Uma história de amor

Take 1:

Desmond pergunta

jogado no sofá da sala

nocauteado por um litro e meio de conhaque

por onde andará seu amor

Molly tenta arrumar os livros,

os discos, os dísticos

em seu quarto e

indaga ao espelho

a quem serve

a tal da democracia

Take 2:

desaba na cama nem vê que o lençol

é xadrez e que não há mais

cigarros dentro da gaveta

do criado-mudo

interiores habitados por

violência de dissoluções

e ternura

ela caminha na neve

lábios russos e rachados

a água cai e estoura o estuque

repete-se (elegia voz)

a morte

nas trincheiras

(o silêncio é um

único grito de dor

it is said to represent a mirror.

 

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