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Casamento
Natanael de Alencar
Fim: Seu casamento, feliz no fim, quando os pés são leves como bonecas infláveis de pelúcia. Seu
marido, o espelho das leis e convenções, tinha um modo de puxar as
cadeiras nos restaurantes, semelhante à maneira de colocar o
travesseiro embaixo das costas para dar prazer ao coito. Sua família apoiara a união, louca pra se livrar de mais uma boca. Mais
sobra nos sábados em que churrascos chiavam em harmonia com os cliques
das latas de cerveja. Mais espaço para as fodas sorrateiras nos
recantos da casa, escuros e em construção. Em casa, a recém-casada esperava o marido. A princípio, o peso que sentira à cabeça não era digno de nota. Pensara ser o cabelo a causa da alteração gravitacional. Uma vizinha inocente creditara a culpa ao deslocamento atmosférico. No entanto, eram tantas as hipóteses, palpites, piadas, que decidira recorrer ao esotérico. Satisfeita
com a resposta abstrusa, cheia de complicações sintáticas, transformara
o acontecido numa vantagem, alugando seus chifres como quarador. O
inconveniente era que o teto precisava ser aumentado infinitamente,
chegando a tocar no sobrado dos deuses desacreditados, adrede
confundidos com anjos caídos. Uma vez despencara um deus por sua galha, que amorteceu a queda. Foi
a partir dessa visita bombástica, da qual o deus nu soube tirar
proveito, que sua sexualidade ficara incontrolável e a galha foi
diminuindo até sumir. Então, a história terminando pelo início. Era
uma vez uma esposa que conheceu – no sentido bíblico – um deus
desconhecido e pediu o divórcio e saiu pelas ruas dando pra deus e o
mundo, afirmando o selvagem impulso dionisíaco de ouvir o grelo falante.
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