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[HETEROCÉFALA]
"Publicitária por formação, escritora por vocação e blogueira por
oportunidade." Escrevo contos por prazer, poemas por necessidade
(emocional) e crônicas por teimosia;
• Adoro chocolate, mas não sou chocólatra;
• Adoro dançar, mas não sou baladeira;
• Adoro comer, mas não sou gorda.
Portanto, não perca seu tempo tentando me entender, mas se quiser
perder tempo lendo as minhas divagações em forma de texto: fique à
vontade! |
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Um prenúncio de partida
Nicole Louise
Gostar de você é como andar numa estrada à 40km por hora e ainda sim
ser lembrada de que o limite é 80... É como querer fazer tudo
direitinho, andar na via certa, na velocidade certa, com o farol
ligado, respeitando todas as regras, e ainda sim ter que observar
dezenas de placas, e sinalizaçções luminosas insistindo em me lembrar
que devo ficar atenta para nãão sair da reta, para não ultrapassar os
(seus) limites, para não te machucar...
Sou eu quem está dirigindo, o que significa que se eu me distrair com a
múúsica e bater numa árvore, se eu acelerar numa curva e perder o
controle, ou não freiar na hora em que um jegue atravessar a pista de
repente: quem vai se estrepar sou eu! Eu, euzinha aqui, mais
ninguém.
Mas você não pensa
como eu, e eu só penso em você. E continuo a viagem em sua direção.
Pensando nos seus medos, nos seus limites, nos seus traumas, nos seus
obstáculos. Você, Vocêê, Você. Maiúsculo mesmo. Porque te coloquei em
primeiro lugar, acima de tantas coisas, o que acabou sendo tão fatal
quanto qualquer barbeiragem no trânsito.
Mesmo assim me vi disposta a continuar, até que te alcançar provou-se
tão impossível quanto atravessar o deserto do Atacama de barco... Você
é tão vazio, tão seco, tão árido... sem qualquer previsão de chuva. A
chuva que me faria ver em seus olhos que você sofreria se percebesse
que eu me afastava cada vez mais do ponto em que, ao final dessa
viagem, finalmente nos encontraríamos.
Depois de percorrer umas 10 mil léguas eu desandei. Parei de aproveitar
a viagem. E se quer saber: eu tinha planos pra ela. Dezenas de
planos... Eu queria aproveitar a vista, apoiar meu braço esquerdo na
janela do carro, baixar o vidro pra sentir meus cabelos esvoaçando com
o vento que entraria pela janela e tomaria conta de todo o interior do
carro; eu queria cantar bem alto as músicas do New Order e sorrir feito
boba imaginando como seria passar minha primeira noite com você. Mas as
placas estavam por todos os lados e continuavam a chamar a minha
atenção: “cuidado”, “pare”, “diminua”, “declive”, “desvio”...
Fui obrigada a ficar atenta a cada ruído, cada vulto, cada movimento; a
estar preparada para reagir a qualquer coisa, a qualquer momento, e
logo me dei conta de que aquilo não era uma viagem, aquilo se quer era
vida... Podia ter sido qualquer outra coisa, mas no final não passou de
uma chance para anunciar a minha partida.
Ao manter os olhos abertos para as placas, acabei observando tantas
outras coisas...: “cuidado”, “pare”, “diminua””, “declive”, “desvio”...
- desvio??? Desviei. Dirigi pra bem longe, perdi o melhor da viagem...
e até agora não te perdoei.
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