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Os
Cavaleiros da Sexta-Feira
June Moon
1. O LOCAL
era o de sempre e eu não queria, mas o vidro em frente era adorável,
transparente, minha língua imediatamente foi de encontro a ele. não
queria quebrá-lo ou ultrapassá-lo, queria ele bem ali, onde estava,
intransponível e democrático, emanando os sons de modo abafado.
o calor que subia de meu corpo tinha um cheiro desagradável, de dia
inteiro sem banho tomado, de dias inteiros sem banho tomado, sem banho tomado.
o vidro e seu grande mistério de ser contendor e acolhedor, transparente
quase etéreo, o vidro que barra ao mesmo tempo que é convidativo:
entra.
2. OS COMPANHEIROS ANTIGOS
um trajava a camiseta e jeans indefectível, a mochila companheira de
seus hábitos de andarilho do mundo, os olhos fundos e inteligentes que
só HOMEM pode ter, frios e matadores, olhos que me dão um certo
temor, pois quando esse um olha nos olhos, o que é raro quando profere
seus discursos de profeta que não o quer ser, sei que me fere. e eu
gosto.
uma trajava blusa provocadora, saia verde-sonho, a meia linda preta terminando
no tornozelo e uma sandália que só MULHER pode usar, o grande
cabelo gigante, os olhos congestionados de sonhos sem precedentes, de excessos
maravilhosos, mulher excesso. uma que pode falar poesia em linguagem gíria,
em definições inusitadas, em grossas gotas de chuva deixando
meu corpo mole. e eu gosto.
3.AS DROGAS
agora são pequenas doses de álcool a deixar meu corpo mole e
sem constrangimento, o vale, refeição destruidora de fígados,
o álcool benigno, bendito, santificado no sangue de cristo, demonizado
no século 19 em doses de absinto, o álcool grande amigo e inimigo,
desinibidor do apetite por bestialidades, guerras, poesia, luta, solidão,
demencia: encontro com a besta que habita o lado negro da não-lua.
agora são os pequenos cigarros de erva oferecido pela deusa do amor,
enrolados em cone que sempre foi coisa de gente que sabe exatamente o que faz,
a perícia de longos dedos experientes. a fumaça que entra rasgando
e deixa aquele cérebro, um dia sólido, muito mole, que baixa
as pálpebras e acirra as manchas roxas logo abaixo dos olhos quase negros.
a transformação ocorrida é engraçada: morder as
flores amarelas bem no caule apetitoso e arrancá-las, qual bicho no
campo ao sol, corpo pedindo o chão, o arrastar da cobra, o retorno a
condição de quadrupede, a tentação de rolar pelo
concreto inclinado. mas, erva plenamente social, o cérebro fantasia
mas não comanda a ação de imediato. o que salva é que
a fumaça, depois da fantasia, te lança na não-vontade
e por isso você pode ser socialmente aceito. talvez ELES desconfiem de
tal condição.
4.O RETORNO
a pequena chuva, os caminhos contrários, um vai comigo, uma vai sem
migo, e a jornada dentro da MÁQUINA-QUE-TE-LEVA-PRA-CASA passa entre
imagens refletidas. mais uma vez o vidro, o vidro, tudo começou por
causa de vidro.
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