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REVISTA LASANHA
De se lamber os textos...

 
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Natanael de Alencar
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O morto
Natanael de Alencar
Quando ele morrera, todos lembraram de suas performances.
As pessoas do bairro riam ao lembrarem do ódio que tinham dele.
Tudo ficou leve e senhoras de idade passaram a visitar-lhe o túmulo todos os dias.
Vereadores fizeram umas tantas moções de aplauso.
Rememoraram certa vez em que, saboreando uma iguaria morena, caíra uma abóbora em seu nariz.
E outra vez em que roubara roupas de uma “drag”.
E ainda uma outra em que pendurara mulheres num varal para o gozo do vento.
Todos os fatos relembrados não mais causavam asco.
Foi sem esforço que conseguiram sua canonização.
O prefeito ergueu-lhe uma estátua em que seu membro sexual tinha um infinito comprimento.
As bandas da cidade tocaram na inauguração.
Os grupos de teatro apresentaram peças em que ele era o personagem principal.
Foi colocado nos livros de história. Criaram acontecimentos em que ele efetivamente não participara.
Todas as revoluções citadas referiam seu nome.
Todas as guerras ganhas, idem.
Todas as crianças nascidas a partir de sua morte receberam-lhe o nome.
O prefeito pedira até a mudança de seu próprio nome para o do morto.
Na cidade, todos os logradouros foram renomeados com o nome do falecido.
O estado foi renomeado.
O país foi renomeado.
Todos os paises, o planeta, as estrelas, constelações, as galáxias, os buracos negros – nesse momento deuses caídos gritaram: aí não, criatura! - até chegar à cara de Deus, encostado numa anã branca..
Como Deus era Deus desde o início, temendo a concorrência, explodiu e refez o universo, cuidando para que o nome do morto fosse esquecido.

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nagoa@bol.com.br

         
 

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