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REVISTA LASANHA
De se lamber os textos...

 
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Paulo F
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Paulo F. nasceu em São Paulo em 1980, escreveu diversas peças teatrais, roteiros, contos e um romance. É formado em Roteiro e Produção Editorial. É um dos idealizadores da MURO. Lançou em 2005 o livro de contos "Sobre o Infinitivo" e em 2007 lançou o MOJO Book - Belle & Sebastian - Life Pursuit e escreveu e dirigiu a peça teatral "Algo no jeito como ela se move". Quer a vida que todo mundo pediu a Deus

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Paulo F

Você dorme na sua cama. Você quer paz e sossego. É sábado à noite e a vida não lhe oferece nada a não ser algumas cervejas, um colchão velho no chão, uma preguiça desgraçada e a namorada, mal humorada, sentada no sofá, lendo algum de seus livros.

A namorada é um problema. Ela se diz atriz. Faz alguns comerciais, se envolve em projetinhos que não dão em nada, anda com pessoas chatas, faz pose aqui e ali e arrota uma intelectualidade artística hippie chata que me faz querer regurgitar o almoço de segunda passada. Mas ela é gostosinha, e acho que isso supera tudo, não supera?

      - Eu não sei como você consegue ler um troço desses. Puta porcaria. Sexista, reacionário. É o tipo de coisa que meu avô escreveria – ela gritou, agitando o livro no ar e me fazendo despertar do começo do sono.

      - Raul! Raul! Raul, que merda!

      Olho para ela com o coração disparado e certamente com a mesma expressão que teria se um grupo de hunos invadissem meu kitinete com lanças e tochas de fogo. Ela me encara de maneira desafiadora. Pelo brilho em seu olhar vejo que qualquer resposta que eu dê vai nos atirar numa coisa maior ainda. E pelo bom Deus, é sábado à noite.

     - Que foi Mia? Onde foi o estupro?

      - Merda Raul! A gente nunca fica junto e quando temos tempo você prefere dormir?

      Ah meu saco.

      - Mia, foi você quem pegou o livro e começou a ler. Lembra?

      - Nem por isso você precisa dormir.

      É cedo demais para mandá-la dormir e tarde demais para fingir que a conversa não aconteceu. Então me sento na cama e resolvo pegar o touro pelo chifre.

      -Tá bom, o que você quer?

      - Como você consegue ler uma merda dessas? – ela sacode o livro no alto e vejo as páginas amassando e as orelhas formando. Respiro fundo e penso antes de responder, o que leva uns dois segundos antes do...

      - Raul!

      - Que merda!

      - Esse livro? É chato, sexista, reacionário, o autor não tem o menor respeito pelas mulheres. Como é que alguém pode gostar dessa merda?

      - Mia, essa “merda” – e eu faço as aspas com as mão, para me igualar a Mia no fator irritante – que você está lendo é Henry Miller.

      Ela fica em silêncio por um piscar de olhos, talvez pensando num argumento melhor do que o meu, o que não é tão difícil.

      - E daí? Só porque ele é famoso eu tenho que gostar? É ofensivo.

      - Sinceramente  Mia. Eu não queria levar isso a sério. É noite de Sábado, passa das dez e você está encrencando por causa do Henry Miller. As pessoas estão por aí bebendo, conversando, fodendo. É isso que as pessoas fazem. Mas não você. Você quer discutir o indiscutível num Sábado à noite e eu,  num rompante de benevolência e paciência universal vou ouvir os seus argumentos. Ou estou apenas ficando louco. Portanto fala logo.

      - Seu grosso.

      Dou de ombros. Ela bate o pé até a poltrona, se joga com o livro no colo, cruza as pernas e começar a balançá-las. Dá uma longa e sonora inspirada e eu me preparo para a retaliação.

      - O que me deixa puta é a vulgaridade, falta de assuntos edificantes e nas quinze páginas que li, tudo o que ele fez foi apenas vomitar pedaços da sua cabeça doente e sexualmente compulsiva em cima de mim. Eu me sinto ofendida como mulher. Como pessoa. Como ser humano!

      - Pega leve, Mia.

      - Pega você.

      Finalmente crio coragem para me levantar do colchão e me encaminho até a cozinha.

      - Eu fico estupefato com sua inabilidade de entender certas coisa. Quer uma cerveja?

      Abro a geladeira, pego uma geladeira e mantenho a cabeça por alguns segundos lá dentro, com intuito de refrescar um pouco a cabeça. Mas Mia não dá folga.

      - Você está me chamando de burra?

      - Em nenhum momento eu disse isso. Só disse que te falta habilidade para sacar certas coisas. Coisas pequenas, sem importância. Saca?

      - Não.

      - Pois é.

     - Olha, Raul, eu não admito que você me ofenda. Seu brontossauro.

     - Ah meus bagos. Sábado à noite, gente se divertindo, bebendo, fudendo e você realmente quer brigar?

     - Se você ouvisse o que eu falo, e se se importasse comigo eu não estaria brigando, estaríamos fazendo uma dessas malditas coisas que você tanto quer. Ou será que você não deveria voltar a dormir? Assim seria mais divertido.

     - E você poderia voltar a ler e se preocupar com o caralho do Henry Miller.

     - E você poderia ao menos se trocar para me esperar.

     - Eu faria se você não preferisse passar a tarde com seus amigos gays ao invés de passá-la com seu namorado.

     Pausa no arco dramático para explicar que toda a vez que um namorado fala mal dos amigos gays da namorada – nem precisa falar mal, é só falar dele – a terceira bomba nuclear explode no recinto palco da discussão.

     - Você sempre fala dos meus amigos gays! Eles são uns queridos – ai. Se me desse atenção como eles me dão isso não aconteceria.

     - Só que sou eu que te como. E agüento as paranóias. Eles ficam com os sorrisos e sugam seu bom humor, de modo que para mim só ficam as reclamações e a cara feia.

      - É o mínimo que você faz. E merece.

      - Que merda!

      Vou até a janela e vejo as luzes dos prédios, as janelas e algumas pessoas que passam na rua. Mais especificamente um casal que passa de mãos dadas. A garota fala muito e gesticula uma das mãos enquanto o rapaz continua serenamente olhando para o lado. Mia está na poltrona folheando o livro com uma fúria decrescente. Ao chegar na última página se vira e me pega olhando para ela. Claramente está cansada de discutir, como eu. Escuto a garota lá embaixo falando alto para o namorado que ele não lhe dá atenção. As coisas devem ser assim mesmo, sempre serão. A única coisa que nos torna diferentes é isso, e se não fosse isso talvez não houvesse o menor interesse.

      - Raul...

      - Mia...

      - Quer trepar?

      Mais um fundo suspiro. Sorrio, pego-a pela mão, deito no colchão, abro os braços e com um sorriso ela se ajoelha e se deixa cair em meus braços.

      Pois é assim que as coisas funcionam na maior parte das vezes.

 

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