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Dona Eva
Alessandro Bartel Tinha
acabado de cair uma daquelas chuvas de fim de tarde. Trânsito carregado
e eu ouvindo meu mp3 quando alguém segura minha mão. Tirei um dos fones
do ouvido e uma senhora com um pouco de dificuldade de andar perguntou
se eu a ajudaria a atravessar a entrada da garagem do shopping. Disse
que sim e avisei para que ela não pisasse nas faixas brancas porque são
mais escorregadias. E ela me disse que já sabia disso. Atravessamos a
faixa e pedi para que ela segurasse em meu braço que seria mais
confortável para ambos. Ela agradeceu e perguntou onde estava indo.
Avenida Consolação, eu disse. Ela me perguntou se eu me incomodaria de
acompanhá-la até sua casa, no cruzamento da Avenida Higienópolis com
Dona Veridiana, próximo ao Mackenzie. Sem problemas, respondi. E sem
problemas fomos nós. Dona Eva é grega e veio para o Brasil há 52 anos.
"Culpa" do marido, engenheiro, que veio para um estágio e acabou
empregado numa grande empresa. Ela nunca quis vir para o Brasil.
Compreensível. O que faria uma pessoa sair da Europa e vir para o
Brasil no meio do século passado. O pai de Dona Eva morreu lutando na
2º Guerra Mundial, quando a Alemanha e a Itália invadiram a Grécia. Sem
pai, ela foi criada pelo irmão, que lhe deu uma surra quando descobriu
que ela iria se casar com um de seus amigos, que segundo ela, só ficou
amigo para poder ter a desculpa de ir até a casa dela, para que
pudessem namorar escondidos. Dona Eva veio com o marido para o Brasil,
contrariada, e nunca pensou em abandoná-lo, porque na Grécia eles são
bem rigorosos e não era correto ela fazer isso. Ficou. Teve o primeiro
filho e virou brasileira. Hoje os filhos e os netos fizeram o caminho
oposto. Foram todos embora do país. Uns nos EUA e outros na Europa. Há
nove anos seu marido morreu. Dona Eva quase chora quando fala da falta
e da saudade que sente dele. Aos 85 anos ela mora sozinha e não dirige
porque, segundo seus médicos, ela perdeu o reflexo. Há mais de dois
anos que não vai nem para a Grécia e nem para os EUA, por conta de
problemas de saúde. Passa o tempo andando. Gosta de passar as tardes no
shopping conversando e contando um pouco de história. Está assustada
com as coisas que vê pela televisão: as chuvas no Rio de Janeiro, o
fogo destruindo tudo na Califórnia e na sua Grécia também. Diz que está
tudo escrito no Apocalipse. Não Dona Eva, eu não li o Apocalipse, mas
sei do que se trata. Ela volta a falar do marido. Foram 47 anos juntos
e ela sente muita falta dele. Dona Eva, hoje, é muito sozinha. Tão
sozinha que não se incomoda de pedir para que um estranho lhe acompanhe
até sua casa. Deixo-a poucos metros da portaria do seu prédio e fico
olhando Dona Eva. Foi a primeira pessoa que conheci pessoalmente que
estava vivendo na Europa durante a 2º Guerra e que ainda por cima
perdeu o pai lutando na guerra. Quando a Europa estava saindo do
pesadelo ela veio para cá. Viu JK inaugurar Brasília, tava aqui no
golpe de 64, vivenciou toda a ditadura, as Diretas Já, viu Collor
surrupiar a poupança de todos, o Plano Real e Lula chegar ao poder. Não
é à toa que Dona Eva goste tanto de História e de contá-las também.
Tenho dificuldades de me imaginar com 85 anos e ainda mais com toda
aquela disposição. Ela me agradeceu e me pediu para ir ao shopping um
dia desses para gente conversar mais um pouco e ela me ensinar a falar
grego. A solidão daquela senhora de 85 anos e toda a sua história me
passada em cerca de vinte minutos me valeu o dia e sinceramente ainda
estou revendo a possibilidade de ir até o shopping ter mais algumas
aulas de história, aprender a falar grego e dizer para Dona Eva que ela
não pode, com 85 anos, ficar pedindo ajuda pra qualquer estranho que
passe pela rua.
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