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[HETEROCÉFALA]
"Publicitária por formação, escritora por vocação e blogueira por
oportunidade." Escrevo contos por prazer, poemas por necessidade
(emocional) e crônicas por teimosia;
• Adoro chocolate, mas não sou chocólatra;
• Adoro dançar, mas não sou baladeira;
• Adoro comer, mas não sou gorda.
Portanto, não perca seu tempo tentando me entender, mas se quiser
perder tempo lendo as minhas divagações em forma de texto: fique à
vontade! |
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Viva Marta, viva farta
Nicole Louise
Outro dia li no jornal um relato sobre a vida de uma mulher que pariu 5
filhos, largou o marido aos 45, adotou mais 6 e cuidou dos 11 sozinha,
até conhecer, àà beira dos 60, o grande amor de sua vida, com quem já
está há quase 10 anos.
Ao final
do último parágrafo que narrava essa trajetória, havia uma nota do
autor do relato, que escreveu:
““Escolhi relatar a vida de Dona Cleide porque neste dia, 08 de Março,
dia Internacional da mulher, nós, historiadores que somos, nos
interessamos por trajetórias de mulheres fortes que lutaram e se
rebelaram; estáás sim merecem nosso respeito”.
Apesar da incontestável beleza da história de Dona Cleide, marcada pela
disposição de prosseguir, enfrentar, arriscar e prosseguir, sozinha ou
acompanhada, me incomodei profundamente com a intenção do autor de
deixar bem claro que apenas mulheres como Dona Cleide são dignas do
interesse de historiadores e leitores.
Mas logo em seguida me alegrei por lembrar que conheço uma mulher forte
e lutadora que, segundo o infame jornalista, jamais terá sua história
relatada em um jornal, porque apesar de ser forte e lutadora, ela não
se rebelou.
Como maior que o meu
interesse pelos adjetivos atribuídos às pessoas, é o meu interesse
pelas pessoas, sejam elas inventoras, ou “vivedoras”, como já ouvi
gente dizer lá no nordeste, apresento-lhes: Dona Marta.
Ela, a Dona Marta que também é dona de lindos olhos verde, (que eu
gostaria de ter herdado), e de lábios carnudos rosados (que eu herdei),
emoldurados por um queixo quadrado e por cabelos dourados caídos sobre
os ombros. Nem alta, nem baixa; nem gorda nem magra; nem feia, nem
bonita. Simplesmente LINDA. Casou aos 23, com um homem quase 10 anos
mais velho, que vivia a espiar de rabo de olho quando ela atravessava a
rua de mãos dadas com uma outra moça no caminho de volta do cinema.
Ele: o Hélio. Moreno, pele e
olhos marrons, bigodudo. Sempre de terno (o úúnico), gravata e chapéu:
típico botequeiro de primeira; canastrão, de família pobre, que dava
duro durante o dia e aproveitava a vida com as mulheres de vida nada
fácil durante a noite.
Um dia ele
cansou de ter mulher só a noite e resolveu dar fim às trocas de olhares
habituês com a moça de vestido azul que cruzava o seu caminho todo o
fim de tarde das quintas-feiras. Chegou perto, cumprimentou, pediu
licença para acompanhar (as duas) até em casa; papo vai, papo vem,
descobriu que uma das moças não era tão moça, se chamava Sônia e era
mãe da deslumbrante moça de olhos verdes, beleza hipnotizante e sorriso
tímido...
““Marta... que nome
lindo.” Foi a primeira das investidas descaradas, reservada à doce
donzela e à sua, nada doce, família. Marta tratou de convencer a mãe a
deixá-la namorar com o Clark Gable tupiniquim. E conseguiu. Namoraram,
casaram, tiveram filhos (três: Céésar, Celina, Cecília), tudo como
manda o figurino... E antes mesmo da caçula nascer, Marta já havia se
dado conta da peça que a vida havia lhe pregado: o namorado bonitão e
gentil provou-se um marido machista, grosseiro, agressivo...
alcoólatra.
Marta ainda vive. Tá
velha, cansada, mal cuidada, mal amada, mas continua linda porque a
natureza foi generosa o bastante para manter em seu rosto os traços
mais característicos da beleza que fascinou tantos morenos bigodudos
que viveram pelas ruas da São Paulo da década de 50...
E Marta continua lá: na casinha dela, com o mesmo marido (ranzinza e
arrogante), os mesmos filhos (alguns mais perto, outros nem tanto;
alguns arrumados na vida, outros nem tanto), as mesmas tarefas
domésticas (diárias e cansativas).
Marta nasceu, cresceu, casou, padeceu, apanhou, envelheceu... Mas isso
não foi o suficiente para que escrevessem sobre ela. Marta nunca
desafiou, nunca desobedeceu, e muito menos se rebelou... Marta
agüentou, Marta suportou, Marta sobreviveu, e isso é suficiente para me
fazer respeitá-la, e ainda que em seu lugar eu tivesse feito tudo
diferente, escrevo sobre Marta por um único motivo: pelo simples
e relevante fato de que Marta viveu. .
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